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Soluço

O desespero instigante da desordem trouxe-me mais um de seus scripts inegáveis, e mais uma vez sou protagonista e antagonista. Não são deveres que me fazem escolher, mas a racionalidade. Escolhi bem e escolhi mal, escolhi mais ou menos, nunca saberei ao certo.

Antes mesmo de partir minhas saudades me sufocam, e como se não bastasse correm pelo meu corpo como uma corrente elétrica e travam-se em minha garganta, como se uma parte de mim quisesse ficar aqui pra sempre.

E mesmo escrevendo tudo isso, eu não sei o que quero dizer. São tantos pensamentos, uma angustia, aquela vontade louca de fugir e chorar sem ter medo, sem ter que esconder a tristeza dessa despedida.

Sinto esse peso, sinto muitas coisas, sinto que vou me arrepender e me salvar do arrependimento. Eu não peço que me abracem, aliás, eu não quero isso. Eu quero ser eu, eu quero contrariar todo mundo e no fim rir de tudo que eu fiz. Eu não quero esquecer aquela conversa que tivemos durante aula, por mais torpe que ela tenha sido.

Agora eu soluço por amar tudo o que eu vivi. Eu soluço por não saber o que vai ser. Eu soluço ainda mais por saber que nada vai voltar.

Eu quero o minha respiração, cadê?


O meu amor

Convenhamos que a vida não passa de idas e vindas. O ar nunca é o mesmo em todo lugar, o ar sempre muda e, por isso, acaba por lhe aplicar a fervilha do seu comportamento, alterando o seu humor, trazendo-te, muitas vezes, uma repentina pseudo-felicidade, que você não quer que vá embora, naquelas infelizes idas da vida.

Eu gosto de ressaltar que tudo um dia acaba, o seu sofrimento por um amor condenado, uma tristeza causada pela perda de um ente tão amado, e até mesmo aquela aparência que tinha quando era imaturo e muito feliz. Tudo muda, amigos, assim como o ar.

O ar é algo indecifrável, o ar te traz a felicidade de volta, faz com que os seus cabelos fiquem bagunçados, fazendo você rir, ou até mesmo te deixando nervoso, pois ele te faz de palhaço, quer ver você sorrir. Eu amo o ar, assim como amo o Brasil, porque aqui, só aqui, teremos este ar. Em nenhum lugar alguém chegará a encontrar um ar que seja sequer parecido com o do Brasil, ele é único e facilmente reconhecido.

O ar é como uma paixão avassaladora, como o romance que é reservado só para dois e mais ninguém, a benevolência demonstrada por um grande amigo. O ar é o nosso amor, beija-nos por completo, desordena nossos sentidos, deixa-nos a beira de um infarto, leva-nos à fechar os olhos e desejar que aquele momento, quando o vento nos castiga com todo o amor, nunca se vá.

Existem tantos sentimentos que nós desejamos que nunca se deixem levar pelas idas e vindas da vida, tantas paixões, tantos momentos inesquecíveis, tantas pessoas que nós ansiamos que lutem para continuar a viver, para não serem abandonadas pela vida. Nós sabemos, tudo um dia se esvai, escorre como água, vaza pelos nossos dedos, sai do nosso controle absoluto, deixa-nos loucos, e então, sabendo que isso um dia vai acontecer, você vai continuar aí, parado, olhando pro seu computador?

Há muito o que viver, cada segundo desperdiçado é uma porcentagem de ida e vinda que você perde, é uma porcentagem de emoções que você deixa de sentir, e acima de tudo, é a sua vida que você leva com tanto desamor. Tá esperando o que? Levanta, vai sentir o vento no rosto.


14e29

Numa dessas tardes nada jocosas, eu sai para procurar alguma coisa que me fizesse rir, ou me fazer sentir melhor. Mal sabia eu que a alegria estaria em casa, quando eu voltasse. Eu devo ter procurado tanto por algo, que arrumei alguns hematomas, infelizmente, por toda a extensão de meu corpo.

Chegando em casa, não fiz nada além de tomar um banho quente demais, pronta para procurar, com muita falta de entusiasmo, mais alguma coisa que talvez pudesse me dar ânimo.

Encontrei, com sorte ou não, outro alguém, que evidentemente estava com um enrosco idêntico ao meu. Procurei manter-me tépida diante daquele fato, parecia tão habitual parecermos  indeferentes um em relação ao outro. Devíamos estar embriagados, ou melhor, ele devia estar.

Não confiei no que havia sugerido. Por fim, acabei ressuscitando alguma sensação que já havia de ter passado, sem usar do livre arbítrio. Cá estou eu, ébria o suficiente para negar qualquer rol de semelhança entre o meu empenho, e a minha lástima fatigada.

E tenho dito.


Um dia muito bom

Um dia explendido é muito difícil de acontecer. Sempre existe algo que faça ele se transformar repentinamente em péssimo, desastroso. Bem, o dia ainda não acabou, mas eu posso sentir que hoje será um dia daqueles, que se espera por anos.

Não é nem por ter algo para fazer, ou então uma outra coisa que com certeza deixaria qualquer um alegre. É o simples fato de não ter preocupações, perceber que deixei de lado algumas coisas que tanto me prendiam, saber que agora, pelo menos, eu estou satisfeita com o que aconteceu.

Eu gostaria muito de relembrar que você só sabe que está feliz, depois de ter ficado triste por tempo indeterminado. Um mês, as vezes até um ano sem dar aquela gargalhada, aquela que te faz lembrar o que é viver.

Esses dias são muito raros, pelo menos pra mim, então eu vou ver o dia, aproveitá-lo ao máximo para ter certeza de que amanhã, eu saberei que hoje foi um dia maravilhoso.


Aquilo que é triste

Depois de tantos anos, mudando ou tentando mudar, eu permaneço no mesmo ponto de partida. Uso as mesmas frases de semanas há anos atrás e ainda brigo com quem duvidar do que eu sou capaz.

Eu digo que posso muito mais do que qualquer um pode ver, eu digo que sou estável e que ser vulnerável é fraqueza de quem ainda não sabe o que quer. Digo que não sou o tipo que deixa claro o que se sente e que tenta mascarar tudo com coisas vindas da Argentina.

Eu nunca soube direito o que estava dizendo. Afinal, quem acreditaria numa pessoa insana? Eu descobri que depois de algum tempo até ela percebe o que fez e o que está fazendo de errado.

Mudar não é o que eu pretendo e continuar não é o que eu mais quero, decidi que vou permanecer intacta, esperar que os anos seguintes me corroam, como uma pedra sofrendo seus efeitos erosivos naturalmente.

Eu sou algo inanimado, que nunca foi considerado tão importante para poder ser trazido à vida. Eu sou um objeto inerte, que insiste na sua inércia. Igual à pedra que não quer sair do seu lugar, eu consisto e paro de respirar.


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