Lembro-me de cada gesto, nem deviam ser considerados significantes, mas são as únicas lembranças que me restam, a lembrança de alguém que ele não é mais. E nessa noite de temperatura amena, em São Paulo, eu preferia ficar sem lembrar dos minutos juntos que me fizeram sorrir, ou me sentir envergonhada por estar tão apaixonada por alguém que eu não deveria.
O obstáculo mais difícil foi a desilusão. Logo eu, cética inegável, realista por toda a vida, me fiz de romântica mais uma vez, e para o meu desagrado acabei como todos os outros que sofrem, gritam e se desmancham por uma paixão.
Acabar sozinho, esse desfecho de história me trouxe algo à tona: eu costumava dizer que amores platônicos perdiam a graça quando se tornavam realidade, portanto eu me mantinha alegre, imaginando como seria. Hoje, depois de tudo ter caído por terra, vejo o quão importante seria ter continuado com o antigo pensamento.
Na minha cabeça entoam várias frases, palavras e apelidos, todos com o timbre da sua voz. É nela que eu me recosto nas noites frias, escutando infinitas vezes o quase cantar da sua pronúncia quando me chama. É na fotografia amarelada confiada à minha memória que eu me aqueço, o vermelho tocando o vermelho, o sofá beijando panturrilhas e joelhos, o olhar desinibido e a ânsia do toque.
Na minha cabeça, ele será sempre assim.