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O que lembro dele

Lembro-me de cada gesto, nem deviam ser considerados significantes, mas são as únicas lembranças que me restam, a lembrança de alguém que ele não é mais. E nessa noite de temperatura amena, em São Paulo, eu preferia ficar sem lembrar dos minutos juntos que me fizeram sorrir, ou me sentir envergonhada por estar tão apaixonada por alguém que eu não deveria.

O obstáculo mais difícil foi a desilusão. Logo eu, cética  inegável, realista por toda a vida, me fiz de romântica mais uma vez, e para o meu desagrado acabei como todos os outros que sofrem, gritam e se desmancham por uma paixão.

Acabar sozinho, esse desfecho de história me trouxe algo à tona: eu costumava dizer que amores platônicos perdiam a graça quando se tornavam realidade, portanto eu me mantinha alegre, imaginando como seria. Hoje, depois de tudo ter caído por terra, vejo o quão importante seria ter continuado com o antigo pensamento.

Na minha cabeça entoam várias frases, palavras e apelidos, todos com o timbre da sua voz. É nela que eu me recosto nas noites frias, escutando infinitas vezes o quase cantar da sua pronúncia quando me chama. É na fotografia amarelada confiada à minha memória que eu me aqueço, o vermelho tocando o vermelho, o sofá beijando panturrilhas e joelhos, o olhar desinibido e a ânsia do toque.

Na minha cabeça, ele será sempre assim.


Atração confusa

Segundo dia de um novo mês. Insaciável a vontade de falar verdades. Verdades que tanto me apodrecem por dentro, por terem ficado tanto tempo amontoadas, sem saírem. Não tenho mais espaço para omissões, o que significa que eu não quero mais ser gentil, não estou para agradar ninguém. Melhor que doa em você que em mim.

Se me disser que meu humor está péssimo, que eu não sei mais o que é brincar, e que minhas palavras só saem para depreciação, não vou me importar. Não darei atenção ao  que comentam, na verdade, não pedi opinião alheia. E mesmo que eu quisesse continuar a minha auto-tortura, não faria isso por alguém como você. Eu não quero mais ser alguém que não sou.

Sua vida é tão agitada, são tantas pseudo-namoradas. Não que me importe, mas não é assim que se consegue o que quer. Debate sobre política, religião, adora comentar sobre o que todos nós chamamos de atração, menos você, pois prefere a palavra “amor”. Aceita tudo, espera que todos gostem de você. Aliás, faz de tudo para gostarem.

E eu comecei esse post com uma vontade imensa de ter um final excelente e compreensível, mas eu falhei. A sua vida não me pertence, nem a minha a você.


Autocrítica

Começando sempre sem a intenção te terminar. Falando sem sentir vontade de falar. Rindo sem nem saber do que. Buscando algo que não gosto. Fazendo coisas pelo simples ato de fazer. Exagerando sem necessidade. Escrevendo e pensando para viver.

Cansaço aparente, reclamações inúteis, irritação permanente. Tudo parece tão insensato e tampouco o é. Eu quero a minha vida fora do realismo, eu quero estar aérea por felicidade e satisfação, sem preocupações inusitadas e sem choques prematuros.

Minha personalidade tem a ver com o meu mundo, mas não sou de me julgar excluída, muito menos de falar que eu não pertenço ao seu mundo. Não conheço ninguém, apenas sei o que eu sinto, apenas quero saber o que eu tenho e desejo. E bem, de certa forma, é o que todos deveriam pensar, não é mesmo?

Eu cansei de estar preocupada, eu cansei de estar sempre sob pressão, eu cansei de mim. Cansei da minha vida.


Vai doer?

É pelas sextas atordoadas, pelas quartas tão repetitivas e pelos domingos insolentes que eu continuo vivendo. É por eles e mais nada que eu estou aqui, pois diga-me, existiria clímax se não houvessem as sextas, as quartas e os domingos aqui, pra me fazer relembrar? Quem sou eu, tão estúpida e arrogante, para não perceber que as experiências só servem para me alertar de uma forma mais rígida, mais consistente? Eu preciso dessa experiência retesada para me bater, pois só assim serei capaz de compreender.

Agora, prometendo inúmeras coisas, acabo de prometer que não serei tão pessimista como era, pois descobri que hoje, logo hoje, não doeu tanto quanto antes. Apanhar serve para lhe acordar, ser pego serve para lhe trazer a felicidade em momentos mais oportunos, e, acima de tudo, rivalizar-se tem a função mais importante, essa guerra é só para te fazer crescer.

Acredite no que eu digo, dois mil e nove me ensinou muito, e eu já nem sei se quero esquecê-lo, pois, de fato, foi pesado, angustiante, e por outro lado, me fez ver agora, só agora, que a vida é isso, esse é o nosso jogo, e nós viemos para ganhar, sem recusas. Brigas me atingiram, nomes pesados me acompanharam, e bruxas e bruxos, que são meus amigos, continuam comigo, sobreviveram à dois mil e nove.

Infelizmente, existe uma parte do ano passado, uma grande parte,  que não quer continuar comigo, que insistiu em morrer hoje. Pois bem, não posso consternar, apenas posso progredir e falar o meu popular “entendido”. O meu “entendido” resolveu minha vida, sim, este verbo me salvou.

E depois dessa madrugada tão cheia e fatigada, eu vou dormir, com a melhor aparência que eu posso ter, com a melhor reflexão que eu poderia fazer e com os hematomas mais doloridos de todo o mundo. Um pé de presente pode ser triste, mas o segundo lhe fará ser feliz, lhe fará alguém melhor, alguém que não é mais tão inocente, alguém assim, como eu.

Entendido, dessa vez eu juro que não vai doer. Ou, pelo menos, não vou fazer valer.


Benzinho

A vida acaba sendo, muitas vezes, enfadonha. Quando você procura algo para tirar a sua atenção, ou então, busca por jogos pessoais, é sinal de que não está satisfeito, está tentando disfarçar a sua falta do que fazer. Mascarar o seu verdadeiro estado, mostrar-se mais útil e ocupado para que seus grandes amigos possam ver o quanto é cobiçado.

Usar óculos escuros, beber bastante, fumar cigarros não tão fortes nas ruas, desorientado, procurando alguém que possa te ver e fazer um comentário que você já esperava. Um comentário que você adoraria escutar sair da boca dos seus grandes amigos.

Diz que seus maravilhosos companheiros te chamam para sair todos os dias. Você, sem pensar, aceita na hora, já vai se arrumar, foge do lado maçante da sua vida. Parece o mais galante de todos os rapazes do seu amplo bando, sai pelos bares, sorrindo à toa, fingindo verdades para os desconhecidos e esperando por meninas e meninos que lhe achem atraente e acabem por pagar bebidas irreverentemente.

As suas contas, no final do mês, são todas com ligações e mensagens, todos os números que você já soube, mas que fez questão de esquecer, dando lugar à novos que chegaram e ocuparam o vazio que você fingia estar no coração. A sua agenda telefônica significa sentimentos, portanto todos permanecem, pelo menos, uma semana. Se alguém lhe valer a pena, lhe der privilégios, esta permanece por, quem sabe, até um mês. Senão, sai na primeira e unica semana.

Seus lábios já passaram por toda a cidade e mais um pouco. Sem contar o que você insiste em alegar todo o tempo, que nada lhe faz mover uma pena sem o tal interesse. Liga quando bem entende, recebe várias ligações e só  atende quando não se lembra do número. Cada noite significa uma ressaca no dia seguinte. Cada beijo mostra uma menina chata e louca que vai correr atrás de você até cansar de chorar e de lhe adorar.

Todos os seus dias são assim, você não se cansa, não parece se arrepender. Suas falsas alegrias são tão mais importantes, um tanto mais interessantes, por isso não larga. Esse é o seu vício, é o seu delírio, o fim e o começo da sua loucura, a sua perdição. Rode de bar em bar, de boca em boca, só não venha me culpar.


Fuga

Num desses dias normais, deparei-me com uma situação inusitada: Que seria de mim se eu resolvesse brigar com pessoas que eu costumava confiar? Resolvi testar, mesmo sem me depreender do que estava prestes a fazer. Deixo-me admitir que gostei da sensação por algumas horas, talvez até por alguns dias.

Eu cogitei a possibilidade de me aliar à pessoas que eu nem sequer sabia o sobrenome, quem dirá os seus propósitos. O intuito, desde o início, foi nulo. Fui inconseqüente, agi inesperadamente e, de qualquer forma, me julgo evidente e clara.

Conquanto, não deixo-me levar pela falsa impressão de altruísmo que certas pessoas insistem em causar. Torna-se ridículo, quiçá até excêntrico o que estas têm a dizer, ou como tentam tornar sua idéia inteligível. Os atos são, visivelmente, de natureza errante e contraditória.

Os valores que os mesmos eram habituados a ter, foram destilados, não restando nada. Considero borralho aquilo que tive o desprazer de provar e tutelar. Tudo o que passou, eu desprezo.

Sinto-me como um desagrafador.


C16H13ClN2O

Numa noite quente demais, ficar esperando a verdade não é recomendável, ainda mais quando esta se trata da noite de sábado. Com o celular do lado, telefone ao lado, messenger conectado e sentada na cadeira muito confortável, esperando o tédio definhar.

Com essa desilusão, resolvi ler um livro. Um livro muito bom, que aliás, já tive o prazer de ler algumas vezes. Memórias Póstumas me atinge de tal forma, que chega a ser indiscutível. Meu delírio por este é indiscutível.

Não cansada de esperar pacientemente até as duas horas da madrugada quente, peguei outro livro, mas como não conseguia me concentrar, decidi parar e me deitar. Uma vez deitada, eu girava na cama. Isto era uma situação crítica, que pedia o auxílio de um ansiolítico forte, que me fizesse apagar em questão de minutos.

O que veio em seguida, depois de vinte minutos exatos, alguns conseguem compreender, outros não. Vinte minutos, entra ação. Eu dormi, na verdade, acabei de acordar da noite maravilhosa que tive. Depois de um mês, ou mais, sonhei.

Sonhei algo triste, muito triste. Mesmo assim, continua valendo. Sonhos são sempre bons, para mim.


Baixo calão

Eu me pergunto onde foi parar a solidariedade. Desde quando está fora de moda socorrer, ajudar um amigo? Desde quando uma pessoa que você conhecia bem até demais se tornou um completo inútil, mal-aparecido e egoísta?  

Eu estou cansada de tanta falsidade, eu estou cansada de aparências. Eu quero a verdade, não quero futilidades. Eu quero (e me desculpem pela expressão) que se foda.

O mundo está cheio de seres ignorantes, mas você é o maior deles. Delinquënte mais santo de todo o país, desculpe-me pelas palavras rijas, mas é bem o que você precisa. Precisa de uma mãe que lhe dê atenção, precisa aprender o que é um sentimento. Necessita, neste exato momento, de um choque, para te despertar, para te fazer ver que não é de repente que eu consigo te amar.

Além do mais, se queria mesmo alguma coisa parecida com amor, acabou de desmerecer. Criança frívola, excêntrica. Meu coração, eu resguardo para situações de alto prestígio, não com detritos, animais rastejantes. (e que me perdoem os animais rastejantes pela comparação de baixo calão)

Me desculpem aqueles que lerem. Eu não costumo postar desabafos, nem comentar sobre desaforos aturados, mas desta vez foi demais.


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