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Direito de falecimento

A morte não foi conveniente, nem era para ser, mas podia ter-se passado por discreta e pura. Ao passo que não conseguiu, levou a esperança e a angústia daquela família e do meu peito, consecutivamente, já que a informação chegou tardia e ofegante ao meu conhecimento, logo depois de ter passado pelo hospital e pela casa laranja próxima à minha.

Depois dessa partida, restou-me o aconchego impróprio de meu sofá e um telefonema nada agradável. Sabia que devia estar sentada e sabia que iria machucar, então para quê escutar? Pois bem, o fiz, sem medo, nem vergonha. Escutei tudo o que foi dito, sem pronunciar uma palavra sequer. Duas vidas se esvaíram hoje, uma delas nunca cruzou com a minha, a outra eu encontrava à cada “Bom dia!”.

Vidas vão e vêm, nós não estamos aqui para intervir nos seus respectivos direitos. Elas vão e vêm, só.


Exceção

As pessoas insistem em muitas coisas. Seja esta coisa certa, ou então, errada. Inclusive, eu andei reparando em todas as possibilidades que alguém necessita para manter-se alterada socialmente. A resposta que obtive: até numa festa de criança (lê-se coisa inútil, sem importância alguma) as pessoas fingem. 

Existem vários gêneros para isto que eu acabei de citar. O que eu escolhi foi o fingimento excessivo, neste há uma variedade imensa de espécies. Aliás, nem a fauna brasileira é tão diversificada quanto este. A espécie escolhida dentre as milhares foi a de envergonhados. 

Envergonhados têm uma certa dificuldade para tudo. Não que eu esteja falando que todos os envergonhados por natureza sejam falsos, fingidos e afins, mas isso deixa muito mais claro para eles, o quanto é mais viável se fingirem. 

Para isto não existe idade, muito menos raça ou qualquer outra coisa envolvida com genética. Todos somos vulneráveis, todos podemos e às vezes até somos. O que eu critico, ou então, se preferir, o que eu repudio é o uso excessivo que as pessoas estão fazendo. Parece alguma droga, algum alucinógeno que mantém todos longe da realidade de hoje.   

Depois de vivenciar, nunca mais se esquece. Fica ultrapassado e parece tão distante, mas nunca se esquece algo como isto. Parece tão vulgar ficar se fingindo, se mostrando, como se estivesse numa vitrine, que seu cérebro não permite o bloqueio como em qualquer outro trauma normal. Parece uma defesa que seu próprio corpo cria para te lembrar de tudo o que você já fez e para te alertar do quão ridículo isto é.


Semana agitada

Essa semana foi agitada, não pelo fato de eu estar em outro lugar e ter me divertido um tanto que eu não esperava, e sim por ter passado rápido demais, não deu nem tempo de prestar atenção em tudo o que passou. 

Óbvio que está claro o porque de toda essa minha felicidade que apareceu de repente. Um cachorro pode não fazer diferença para muita gente, mas para mim, significa muito mais do que apenas um animal de estimação.

É motivo pra comemoração, festa e afins. Ainda mais porque a pessoa que menos queria isso, foi quem “teve a ideia” de pegar. Faz anos que eu não sei mais o que é ter um ser totalmente dependente de mim.

Tomara que o que eu estou esperando seja a realidade, porque se não for, seria como roubar uma grande parte da minha vitalidade, como me jogar de um penhasco e saber que não há volta.

Parece até novela das nove.


Infância perdida

O tempo está passando realmente muito rápido, eu não estou tendo tempo nem pra pensar. Isso é o que todos pedem quando estão de férias, curtir muito para depois poder aturar a volta das temidas aulas.

Eu, não me preocupando muito com o que está acontecendo, passei a prestar atenção nas conversas entre um lugar e outro. Estas sim são realmente muito interessantes. Já perceberam como é possível revelar coisas tão íntimas e, às vezes, que te fazem tanto mal em questão de segundos, quando está distraída com o trânsito da cidade?

Hoje eu percebi que não tive infância para algumas coisas. Eu nunca acreditei no grande Papai Noel, muito menos no admirável Coelhinho da Páscoa, há quem diga que eu sou muito seca para acreditar nessas coisas. Eu acho que um pouco de ingenuidade não teria me feito mal algum.

Ver meu irmão acreditar no Papai Noel é uma sensação indescritível. Algo que eu nunca tive o prazer de sentir me torna incapacitada de relatar, mas eu tenho certeza que deve ser muito melhor e muito mais intenso do que ver os olhos dele brilharem, sua respiração ficar mais rápida e forte, do que assistir todo o seu show, seus gritos de alegria ao ver o suposto Papai Noel.

Eu queria muito poder voltar no tempo, escrever uma carta destinada ao Coelhinho da Páscoa, ter cortado pedaços de cenoura e colocado na mesa esperando realmente que ele viesse. Ficar acordada na cama, esperando que o Papai Noel chegasse com a sua bagagem super pesada e deixasse um presente para mim. Sim, eu queria.

Pode parecer sem importância, algo passageiro, mas ninguém que já acreditou pode me julgar, ninguém que nunca sentiu na pele o que é não acreditar, pode relatar como é se sentir a única criança que ria quando se citava o nome “Papai Noel”, ou então que debochava quando se falava em Coelhinho da Páscoa.


Crítica sutil

As pessoas estão com uma unica ídéia, que parece uma pandemia, se espalha tão rapidamente e intensamente quanto, e infelizmente é a opção pela crítica pessoal. Inclusive quando não se tem nada para falar, perdem a chance de ficarem calados para fazer uma crítica nada produtiva e ainda por cima fazer escândalos afim de mostrarem o quão certos estão.

Nada pode impedir ou mudar o pensamento dessas pessoas, não importa se você se mostre diferente, ou se você converse e mostre seu ponto de vista, nada tem o poder de mudar as coisas com tanta força e precisão.

Tem muita gente que não enxerga o furor que causa com questões estúpidas e que já foram esquecidas pelo tempo. Há uma grande persistência em certos assuntos que não deveria existir e nem afetar terceiros, uma coisa chamada rancor.

Uma coisa é uma coisa, não se pode explicar o que é. O rancor é tão inexplicável quanto uma coisa. Não há razão, não mesmo. Enquanto alguns procuram uma explicação para odiar tanto outra pessoa e prejudicar de forma tão ínfima os que estão ao seu redor, existem outros que sofrem com essa posição escolhida.

Todos estão livres para escolher entre o certo e o errado, se é que isso ainda existe. Guardar rancor pode ser certo ou errado, mas existe uma posição que sempre será prejudicada, logo a que deveria ser mantida intacta.


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