Uma destas noites mais apagadas, mais lisonjeiras, menos infelizes e um tanto mais confortáveis, eu me encontrava na sacada, sentada no chão frio, com os pés descalços e uma incrível dor, que partia-me em duas, uma desocupada e uma preocupada. Importava-me apenas o que eu estava por fazer, sair pelo portão e andar por toda a cidade, sem fatigar, sem oscilar, justamente para não me preocupar. Era uma questão de princípios, sair ou extinguir.
Antes que eu descreva o meu pesar daquela noite agradável, continuarei. Recebi um telefonema, um daqueles animadores, que te fazem ficar parado, conversando durante horas, sem nem ter algo para compartilhar, apenas com o intuito de não parar. Não me esforcei para pensar, as palavras fluíam, despediam-se e saiam, como se não fossem voltar, davam lugar às outras que estavam por vir. Após duas horas, deparei-me com a inenarrável vontade de olhar a escuridão e contemplar o que, de pouco nela, havia, portanto, desliguei o celular, desliguei-me do mundo.
Ruminei por vários minutos tudo o que havia se passado no dia, olhando para o grande vazio que se encontrava na rua, e então, obriguei-me a lembrar dos poemas e textos mais belos que já havia lido. Não posso negar que foi impossível não pensar no autor, no magnífico escritor que ele é. De certo eu não poderia ficar mais apaixonada do que já estava, sua escrita é completa e assombrosa, sublime. E desejei, por dois minutos, poder ter o dom que ele tinha, poder compartilhar com ele as minhas idéias e planos, de chamá-lo para fazer parte do que eu chamo de vida.
Embora eu estivesse tomada pelo sentimento mais digno do mundo, quiçá do universo, senti-me como uma sonâmbula, agindo sem tomar consciência dos atos, falando sozinha, sem dar conta do absurdo que estava sonhando e cobiçando. Portanto, resolvi deitar-me, abarrotando-me de realidade, apresentando meus pés, novamente, ao chão, ao mundo. Dormi por algumas, poucas, horas, acordei e não lembrei de nada que fizesse sentido, algumas conversas ao telefone, algum pensamento desvairado que bastou-se em alguns minutos (e que voltaria hoje), e ignorando tudo, tomei um bom café-da-manhã.