Não prestei atenção na noite, muito menos nas ruas. Em nenhuma joguei olhares de atenção, nenhuma de todas que passei. Parecia tão escuro, e era, assim como um breu inacabável dentro de minha própria mente. Eu tinha meu controle motor intacto, ou quase isso, até às onze horas da noite, passando da uma, restava-me apenas ouvir impacientemente ao som que me seguia, vibrando de todas as cordas vocais do local.
Minha opinião era inconcebível, diferentemente de todas as outras seis que surgiram. Minhas palavras eram irreverentes, sutileza e gentileza não são da minha personalidade. Meus olhos se abriam apenas para olhar, ora a televisão, ora a banda que tocava no palco alto demais. Minha boca formava sorrisos de meio minuto em meio minuto, e na seqüencia geravam letras de músicas que eu não escutava há muito.
Sim, eu estava bem. Tão inacreditavelmente bem, que mal podia pensar direito. Eu cantava e dançava, conversava e apontava, olhava e sonhava, via a porta de entrada e a do banheiro, em nenhuma das duas eu podia encontrar alguém que fosse ele. Apenas um velho bonito, desacompanhado e melancólico, traduzindo: uma versão mais idosa dele. Tudo o que eu queria ver e ter no momento.
Não tive desespero, duas da manhã, voltando para casa. No meu celular, algumas ligações perdidas, todas da mesma pessoa, não liguei de volta. Eu me senti viva, jovem, acompanhando os passos da vida e lembrando do cartaz do James Dean, assim como tinha de ser. Eu estava bem, alegre, satisfeita, ou quase isso.
Muitas doses disso deve fazer mal, pensei. Porém, seriam essas forças inexistentes tão infelizes e amarguradas que não me deixariam pedir mais uma dose, no futuro? Não, essa foi a minha resposta para a minha quase consciência. Por isso, eu clamo por absolvição, para ser aceita no paraíso fumacento e vermelho dos meus roqueiros novamente.
Agnósticos e ateus, lá está o teu paraíso, cá está a orientação. Eu já estou indo, te encontro lá?