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Palavras e dores

Um dia de hematomas, com formação de empolas por todas as partes do meu corpo, um calor de quase fazer delirar, roupas pretas e aquele amigo. Sinto as palavras implorando por uma brecha da minha constante vigia para sairem, enfim. Ao invés disso, deixo que elas se enrosquem em minha garganta e voltem ao lugar de origem.

Hoje eu tive muitas alegrias, muitas mesmo. E no final da tarde, quando chovia, eu soltei tudo o que estava preso há um ano. Eu libertei os demônios para que estes pudessem acabar com a felicidade do meu dia, para que acabassem comigo, e esperando, já cansada de tanto esperar, que eles me matassem.

Meu grande azar é o fato de palavras não terem o poder de matar instantaneamente. Há tempos elas escapam, de bandos em bandos, correm e corroem, mas não me matam. De fato, um pensamento meu, para ser pronunciado, custa muitas palavras, mas por que não tão rígidas a ponto de me transformar em cinzas?

Esse é o meu azar de hoje. E do resto da minha vida.

 


Não dói mais que antes, mas agora é constante

Um texto para renovar, uma nova manhã para tudo esclarecer, uma conversa a mais para alegrar e uma segunda tarde para divertir. Eu sinto que preciso de mais coisas para fazer, menos para falar e pensar. E foi nesse surto de entusiasmo e inovação que falei com o ébrio-mor.

No começo não tinha sentido, nem mesmo ao dar o tão esperado “Oi” eu senti algo diferente, algo pulsante. Foi uma conversa um tanto quanto gélida, algo travado, algo que tínhamos de fazer, um pelo outro, ou então ele, por si próprio.

Depois dessa conversa sem nexo, ocorreu outra. Esta, mais cheia de vida, com história e sentimentos. Eu me pergunto se ele quer o que eu quero, mas eu penso demais. Talvez bastasse o “não”, mas o “não” se torna tão improvável quando eu falo com ele.

Ele acertou o pulo quando me encontrou, pena que desperdiçou.


O pesar da tarde quente

Lembro-me de ter pensado uma ou duas vezes sobre aquele homem. Aquele homem que, na verdade, não é homem, é menino. Preso ao corpo e mente impecáveis, ele me viu. Notou-me um dia, e eu, na minha mente insana, já o conhecia há dois anos.

Soube meu nome por ajuda dos amigos, convenceu-me no primeiro dia que o vi de que estávamos fadados ao fracasso juntos, que nos merecíamos, que tudo o que estava por vir seria muito ruim, mas estando juntos, nada poderia ficar insuportável.

Não posso dizer que o amei, ou que ainda amo, juramos um quase relacionamento, exceto pelas responsabilidades e pelo relacionamento em si. Selamos esse quase pacto com algo que, na verdade, deveria ser sangue ou apenas saliva, mas foi muito além.

Ele encarna o meu melhor amigo e o que, no futuro, poderia ser o mais próximo de um marido. De certa forma, não penso nele, porque me sinto no dever de manter o quase pacto válido em quaisquer circunstâncias.

E sim, eu desejo todos os dias que ele me abrace com todo o afeto que ele pode ter, com toda a vontade que ele pode sentir, mas nunca o vejo. Meu desejo não passa de ilusão, nosso quase pacto não passa de uma ilusão de ótica, de uma regra para entrar em vigor quando se sentir a necessidade, ou falta de alguém.

Nosso quase pacto não existe, eu não existo. Sequer pensaria em me cumprimentar num dia bom. Eu não gosto do que vejo, e continuarei a não gostar.

É um pesar inacabável não poder fazer nada sobre isso.


Há seis meses …

Eu não devia ter vivido tanto para ter sentido aquilo, até porque não aceito a rejeição tão facilmente. Morrer se torna um fato triste quando se tem algo no mundo que lhe faça feliz, se está completamente sozinho, não sentirá falta de respirar, pois já não vive há muito. Portanto, morrer e continuar vivendo tornam-se sinônimos.

Há um ano eu conheci alguém, uma pessoa, um homem. Esse alguém soube me fazer feliz por sete dias e depois largou-me na angústia do cotidiano, sem vontade de sorrir, sem vontade de torcer, na verdade, sem forças para continuar.

Depois de dezembro, não conversei, não o vi, não tive e continuo não tendo contato algum. Pensei que depois de um mês ou até menos poderia odiá-lo, poderia pensar na hipótese de esquecê-lo, ou qualquer outra coisa melhor do que continuar a amar um ser tão desprezível quanto ele.

Faço de mim lágrimas internas, que de tanto tempo esperando algum retorno, já secaram e já vieram a ser derramadas novamente. Não seria capaz de mudar meu próprio pranto em função do meu bem, pois então, para quem estou vivendo?

Se eu fui rejeitada, pouco importa, o meu interesse é temporal, espero. Talvez daqui dois anos eu mude, talvez não. Dor de amor se esquece com um novo amor, pois bem, procurei e acabei de perder toda a esperança que eu ainda tinha.

Só existe um grande amor na sua vida, se você resolver conhecê-lo, esqueça a felicidade.


Coitada não, obrigada!

Sabe-se dos limites impostos pelos próprios corpos, pelas próprias mentes, por tudo o que influencia e até manipula, só não se chegou à uma conclusão sobre distúrbios mentais, diferenciações de pessoa para pessoa, cada um com o seu problema, cada um com a sua sina.

Gordura, compras, vômito, mau hálito, sexo, vá entender. Não se importam com as suas crendices, não se importam com o seu gesto, só importa quando aquela fala lhe traz algo de incômodo, pois bem, coitada não, obrigada!

X: Gorda, sim.

Y: É, eu sei.

X: Cresceu, né?

Y: Acho que sim.

X: Grande demais, faz um favor?

Y: O quê?

X: Academia.

Y: Não, tô bem.

X continua com os outros.

Z: Que brexa, coitada.

Y: Coitada não, obrigada!


“Me lembra você”

Abril começou, um alvoroço sem fim, uma loucura que infestava-me por inteira, um amor. É, talvez um amor. Abril não é apenas um mês que passará, abril é o meu tempo. Abril sempre teve esta função, e eu por outro lado, sempre usando muito o desgastado pronome possessivo da primeira pessoa do singular, julgo-me dona de tudo que gosto, infelizmente.

Uma paixão não é uma paixão quando se perde pela conveniência. Uma paixão existira, no meu passado sórdido, na minha alegria repentina, no meu desespero que não tinha fim, agora não mais. E assistindo qualquer filme, lendo qualquer coisa e bebendo o meu café na frente desse aparelho tecnológico que traz tanta discórdia, eu relembrei o estilo barroco.

Ângela, seria este o nome? Pois bem, poderia ser facilmente apagado se já não tivesse sido escrito e impresso, milhares de vezes, por toda a extensão brasileira. “Anjo no nome, Angélica na cara”, Gregório de Matos que me mate pelos meus erros e pela minha cegueira no meu começo de abril.

“Mas vejo, que tão bela, e tão galharda,
Posto que os Anjos nunca dão pesares,
Sois Anjo, que me tenta, e não me guarda.”

Desta vez não foi para mim, assim como nas outras vezes. Ângela é dona da música que diz: “Quando eu vou te pedir perdão por não ter te encontrado?”. Ângela é dona de uma letra no alfabeto: “P”. Ângela não é íntima minha, Ângela me odeia.

Ângela roubou dele o “Me lembra você” que eu espero há meses.


Direito de falecimento

A morte não foi conveniente, nem era para ser, mas podia ter-se passado por discreta e pura. Ao passo que não conseguiu, levou a esperança e a angústia daquela família e do meu peito, consecutivamente, já que a informação chegou tardia e ofegante ao meu conhecimento, logo depois de ter passado pelo hospital e pela casa laranja próxima à minha.

Depois dessa partida, restou-me o aconchego impróprio de meu sofá e um telefonema nada agradável. Sabia que devia estar sentada e sabia que iria machucar, então para quê escutar? Pois bem, o fiz, sem medo, nem vergonha. Escutei tudo o que foi dito, sem pronunciar uma palavra sequer. Duas vidas se esvaíram hoje, uma delas nunca cruzou com a minha, a outra eu encontrava à cada “Bom dia!”.

Vidas vão e vêm, nós não estamos aqui para intervir nos seus respectivos direitos. Elas vão e vêm, só.


Troféus e lápides

Desnecessário: adj. Que não é necessário. Dispensável, supérfluo, prescindível, inútil, vão.

Desnecessário neste momento seria tudo o que não é essencial para o meu bem estar e sobrevivência nesta sociedade de poucos.

Desnecessário foi o teu surto naquele instante.

Desnecessário comprar essa bolsa agora.

Desnecessário me agredir verbalmente por causa disto.

Desnecessário se vangloriar por um feito. (ou quase feito)

Desnecessário jogar lixo nas pessoas.

Desnecessária a tua fragilidade em tempos de felicidade.

Desnecessária a sua criancice instantânea.

Desnecessário esse teu vocabulário de baixo calão.

Desnecessário o teu tom irônico naquela hora.

Desnecessário o teu mau humor.

Desnecessário o teu desprezo por mim.

Desnecessário rir comigo.

Desnecessário.

Desnecessário provar que isso me fere.

Desnecessário!


Nomes próprios

Depois de tantos anos vividos incessantemente, consecutivos e completamente inativos, cansei-me das antigas queixas, cansei-me dos novos desinteresses e, além disso, tudo o que se trata “em geral”. São tantas “gentes”, todos estranhos para mim, chamam-me pelo nome próprio e, por alguma ironia do cotidiano, respondo-lhes como se os denotasse como “amigos”, algo que não consigo entender, mesmo com a ajuda que me foi oferecida com o passar do tempo.

Os meus desejos de um mundo compreendido são incompatíveis com as possibilidades de todos os “dia-a-dia”. A minha verdade não favorece a de muitos, por isso, torna-se tão inconciliável quanto um sonho bom em noites de desespero e solidão. Sendo esta verdade uma amizade para toda a vida, ou talvez uma solução para a situação do ser humano, esquece-se de progredir.

O teu desafeto, ou falsidade, é tão bom quanto um tratamento para alguma doença crônica: parece funcionar, chega a ser ótimo, mas saberás que nunca estarás curado. E eu, desiludida e pessimista, nunca acreditei no divino milagre, nem chegarei a acreditar. Eu vivo pelos outros, não que seja de modo altruísta, mas dependo dos outros para continuar. E se consegues sobreviver entre brigas e desamores, melhor.

O desinteresse não é algo maligno, é apenas um outro ponto de vista. Algum que todos admiram bastante.


Falta de amor próprio

E agora eu me resumo à conversas interrompidas por leis que foram outorgadas por um daqueles reis absolutistas, de muitos anos atrás. As conversas me desiludem e me fazem de carpete, só para poder me massacrar.

P: Eu não sei quando você tá falando sério.

L: Nem eu sei quando você tá falando sério.

P: …

L: Fala tudo.

P: Você é minha irmã, praticamente. Não permito-me levar a sério.

L: É.

P: Acho que é melhor desse jeito.

L: Acho que eu não estou aqui pra forçar nada, nem você. Se você quer, isso é o melhor.

P: Reprimir é forçar.

L: Por mim tanto faz, desde que eu seja a parte reprimida.


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