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O pesar da tarde quente

Lembro-me de ter pensado uma ou duas vezes sobre aquele homem. Aquele homem que, na verdade, não é homem, é menino. Preso ao corpo e mente impecáveis, ele me viu. Notou-me um dia, e eu, na minha mente insana, já o conhecia há dois anos.

Soube meu nome por ajuda dos amigos, convenceu-me no primeiro dia que o vi de que estávamos fadados ao fracasso juntos, que nos merecíamos, que tudo o que estava por vir seria muito ruim, mas estando juntos, nada poderia ficar insuportável.

Não posso dizer que o amei, ou que ainda amo, juramos um quase relacionamento, exceto pelas responsabilidades e pelo relacionamento em si. Selamos esse quase pacto com algo que, na verdade, deveria ser sangue ou apenas saliva, mas foi muito além.

Ele encarna o meu melhor amigo e o que, no futuro, poderia ser o mais próximo de um marido. De certa forma, não penso nele, porque me sinto no dever de manter o quase pacto válido em quaisquer circunstâncias.

E sim, eu desejo todos os dias que ele me abrace com todo o afeto que ele pode ter, com toda a vontade que ele pode sentir, mas nunca o vejo. Meu desejo não passa de ilusão, nosso quase pacto não passa de uma ilusão de ótica, de uma regra para entrar em vigor quando se sentir a necessidade, ou falta de alguém.

Nosso quase pacto não existe, eu não existo. Sequer pensaria em me cumprimentar num dia bom. Eu não gosto do que vejo, e continuarei a não gostar.

É um pesar inacabável não poder fazer nada sobre isso.


Autocrítica

Começando sempre sem a intenção te terminar. Falando sem sentir vontade de falar. Rindo sem nem saber do que. Buscando algo que não gosto. Fazendo coisas pelo simples ato de fazer. Exagerando sem necessidade. Escrevendo e pensando para viver.

Cansaço aparente, reclamações inúteis, irritação permanente. Tudo parece tão insensato e tampouco o é. Eu quero a minha vida fora do realismo, eu quero estar aérea por felicidade e satisfação, sem preocupações inusitadas e sem choques prematuros.

Minha personalidade tem a ver com o meu mundo, mas não sou de me julgar excluída, muito menos de falar que eu não pertenço ao seu mundo. Não conheço ninguém, apenas sei o que eu sinto, apenas quero saber o que eu tenho e desejo. E bem, de certa forma, é o que todos deveriam pensar, não é mesmo?

Eu cansei de estar preocupada, eu cansei de estar sempre sob pressão, eu cansei de mim. Cansei da minha vida.


Coitada não, obrigada!

Sabe-se dos limites impostos pelos próprios corpos, pelas próprias mentes, por tudo o que influencia e até manipula, só não se chegou à uma conclusão sobre distúrbios mentais, diferenciações de pessoa para pessoa, cada um com o seu problema, cada um com a sua sina.

Gordura, compras, vômito, mau hálito, sexo, vá entender. Não se importam com as suas crendices, não se importam com o seu gesto, só importa quando aquela fala lhe traz algo de incômodo, pois bem, coitada não, obrigada!

X: Gorda, sim.

Y: É, eu sei.

X: Cresceu, né?

Y: Acho que sim.

X: Grande demais, faz um favor?

Y: O quê?

X: Academia.

Y: Não, tô bem.

X continua com os outros.

Z: Que brexa, coitada.

Y: Coitada não, obrigada!


“Me lembra você”

Abril começou, um alvoroço sem fim, uma loucura que infestava-me por inteira, um amor. É, talvez um amor. Abril não é apenas um mês que passará, abril é o meu tempo. Abril sempre teve esta função, e eu por outro lado, sempre usando muito o desgastado pronome possessivo da primeira pessoa do singular, julgo-me dona de tudo que gosto, infelizmente.

Uma paixão não é uma paixão quando se perde pela conveniência. Uma paixão existira, no meu passado sórdido, na minha alegria repentina, no meu desespero que não tinha fim, agora não mais. E assistindo qualquer filme, lendo qualquer coisa e bebendo o meu café na frente desse aparelho tecnológico que traz tanta discórdia, eu relembrei o estilo barroco.

Ângela, seria este o nome? Pois bem, poderia ser facilmente apagado se já não tivesse sido escrito e impresso, milhares de vezes, por toda a extensão brasileira. “Anjo no nome, Angélica na cara”, Gregório de Matos que me mate pelos meus erros e pela minha cegueira no meu começo de abril.

“Mas vejo, que tão bela, e tão galharda,
Posto que os Anjos nunca dão pesares,
Sois Anjo, que me tenta, e não me guarda.”

Desta vez não foi para mim, assim como nas outras vezes. Ângela é dona da música que diz: “Quando eu vou te pedir perdão por não ter te encontrado?”. Ângela é dona de uma letra no alfabeto: “P”. Ângela não é íntima minha, Ângela me odeia.

Ângela roubou dele o “Me lembra você” que eu espero há meses.


Desistir, verbo intransitivo

O título discordando da escolha do verbo intransitivo de Carlos Drummond de Andrade mostra que eu já não estou em minhas perfeitas faculdades mentais. Desisti disso também.

E foi por desistência que aquilo acabou, se é que podíamos chamar aquilo de “aquilo”. “Aquilo” é algo existente, algo que é tátil, e aquilo não era nada disso.

E eu comecei o post com ânsia de terminar, mas com a certeza que iria escrever tudo sobre “aquilo”. Agora eu já não sei, não quero terminar algo que já terminou. Não quero condenar alguém por quem não tenho mais afeto. Não quero incitar novas discussões, nem novos assuntos, eu desisti.

Desistir: v.i. Não continuar, abster-se, renunciar.

Desisti, este é o verbo.


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