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Querida

As pernas cruzadas enquanto fumava. O seu cigarro nas pontas dos dedos. Era um belo jeito para se fumar, parecia uma pintura. Fumava os mais fracos que existiam, tirando aqueles com mentol, cujo gosto a moça julgava horrível. Olhava ao redor, com os seus olhos torpes, e tragava a fumaça maleficamente deliciosa. Jogava o cigarro pouco mais de dez centímetros à frente do seu corpo, e com o pé pisava na bituca delicadamente, até apagá-la, como fazia com todos.

E eu ainda me lembro de quando ela dizia: “Eu sempre vou estar ao seu lado!”


JRN

Eu te quero, como eu te quero, para ser feliz, e não satisfeita, transbordar alegria. Eu preciso de você, de um abraço, de um beijo de boa noite. Você é o meu vício mais descomedido, meu único amor, minha droga, feita para mim, e só pra mim. Você é o sonho de uma vida inteira, você é a resposta que eu esperei por tanto tempo pra resolver minha vida, você me salvou, me salva, e vai me salvar, você é a minha esperança. Você é tudo: alegria, coragem, paixão, família.

Você é o amor da minha vida.


Ligações

Talvez fosse muito cedo, mas ninguém se importava. Os bêbados nunca se importam, pegam seus celulares e ligam. É, deve ser um desejo difícil de controlar, uma força além do imaginável, o que a carência não faz com as pessoas? E aí, pronto, a merda estava feita, seus dedos mexendo loucamente à procura de alguém em sua lista telefônica que topasse o que ele, de fato, queria e ainda quer fazer.

Os dedos trêmulos, a mente lenta como nunca esteve, passava os nomes e pensava: “essa vadia não me serve”. Continuava rodando a lista e procurando o único número que tinha os mesmos interesses que ele tinha, e ainda tem.

 

- Oi, boneca

- Oi, você me ligou?

- Liguei, vem pra cá! Vamos comer algo!

- Comer algo? Não tenho como ir!

- Não importa se você tem ou não, chama um taxi.

- Não vou de taxi, tá louco?

- Vem pra cá, ‘tô morrendo de saudade’

- Já te disse, não tenho como…

- Você vem! Daqui a pouco eu te ligo de novo.

- Beijo.

- Beijo.


Até a próxima

Havia, ou há, como preferir, uma fossa onde todos os seres mais nojentos do mundo se encontram, parasitas asquerosos. Os homens eram, ou são como carne pútrida, compartilhavam tudo que tinham em suas mãos, bocas e corações. E aquilo era um covil, um covil de marafonas, onde as mulheres, se é que as posso chamar assim, vendiam seus corpos nus enrolados em lençóis de cama de solteiro. E de vez em quando um daqueles homens podres a chamava para a uma diversão a tarde.

As brincadeiras começavam, e a valéria pulava, e sentia nas coxas grossas e morenas algo que a machucava enquanto o seu querido as apertava fortemente e urrava de prazer, as vezes batendo até que suas nádegas ficassem vermelhas. Embora doesse, a valéria nunca parava, e nem pensava em reclamar, pois como já disse, era uma perdida, meretriz dos infernos. E então desatinava a galgar, aquela moça levava jeito, só de olhar nos seus olhos dava pra notar, aqueles olhos de rameira. Os cabelos grudando em seu suor, que escorria pela face e acabava com sua maquiagem muito mal feita. Como se gostasse, a moça mordia os lábios e fingia compatilhar do prazer com seu querido, as vezes olhava para os lados e via os retratos que aquele homem tinha com a sua namorada, ou mulher, como preferir, existem valérias de todas as idades para todos os homens, idependente da cor dos cabelos, grisalhos, morenos, loiros, isto é, se o homem tiver cabelos.

Depois do calor, os corpos suados, os olhos mal se encontravam, a valéria se abaixou para recolher seus trapos e viu no dedo do querido uma aliança, e pensou em ir ao banheiro alegando ter algum tipo de necessidade a fazer, obviamente não diria sua real razão: a vergonha que sentia de se vestir na frente do seu suposto amado.

Merecia tapas estalando em seu rosto safado, deveria sentir vergonha de se despir para um canalha qualquer, ou não? Chegando ao banheiro, se olhou inteira no espelho e balançou a cabeça, como quem diz que fez o certo, e começa a rezar para que ninguém descubra quão vadia ela fora, ou era, ou sempre foi, como preferir.

Seus olhos encheram-se de lágrimas, e a moça correu a se vestir, pois tinha algo a fazer, ou não tinha, ou podia arranjar com apenas um telefonema, como preferir. Vestida, olhou-se uma ultima vez no espelho e foi ter com o seu querido. Deu-lhe um beijo no pescoço, uma piscadela e saiu rebolando até a porta de saída, como quem diz: “Até a próxima…”


Fraco

Como sempre, e não seria diferente, li os racontos daquele mísero sofredor. De tempos em tempos o faço, não creio que haja alguém que pudesse por fim naquela mente estupidamente brilhante de um simples garoto, que por mais homem que seja, não merece tal denominação. Linguagem articulada, muito breve, muito claro -obviamente que não dirão “fantástico” aqueles que não se aventuram na leitura-, extremamente sensuais são os relatos daquele libertino perdido, que jamais há de se arriscar em triscar na limiar de minha porta para uma “breve” conversa. Um tête-à-tête muito característico, que me rendia vagarosas horas ao espelho, penteando os cabelos castanho-escuro, quiçá negros.

Bom, meu velho amigo, acho que faz algum tempo que não nos falamos, acho que não vamos mais botar nosso papo em dia. Ainda já acabo de ler sua nova epítome -como se eu soubesse de onde rouba todas suas palavras e genialidades-. De primeira, arregalei os olhos num espanto, pensando que certamente quem escrevera não era você, mas com o decorrer das linhas notava sua rigorosidade clássica se dissipando, e então me perdi em meio a sua escrita desprovida de criatividade e saturada de obscenidade e indecência. Espantoso.

Roi as unhas, franzi as sobrancelhas e abri um sorriso sem querer, falando baixo demais, ao invés de “bravo”: “Fraco.”


Maravilha

Grande amor, dos olhos plenos no desenho daquele corpo incrivelmente perfeito, que não era, mas assim o dizia enxergar. Olhos de mel, cuja doçura me fizera desvairar, devaneando muitas vezes uma vida inteira ao seu lado. Às vezes, aqueles olhos nus perspicazes me gritavam a paixão tão loucamente incontida dentro daquele peito, e sem muito suspense, eu sorria, e descobria todo seu mel com os lábios, brincando de ser feliz.

Cantarolando os sambas de amor, eu corria num caminhar sossegado tudo que havia deixado por fazer. Passava pelo quarto e de surpresa te remessava olhares ora macios, ora obscenos. E eu facilmente feria o seu inexistente pudor, no ritmo de um “vem que passa” descontraído, mostrando que tem mais samba nos meus quadris, do que nos pés.

Eu te chamava de corpo inteiro, como se vendesse alguma droga mágica, e garantia com um sorriso torto e uma piscada de olhos voluptuosos que você não se arrependeria de perder o seu sofrer comigo, depois desatinava a limpar, varrer, escovar, cozinhar, com o prazer de te ter por perto, tão perto.

E era assim nossa vida, você levava o meu sorriso, e eu levava o seu estampado na cara. Sempre cantando um “vem que passa” desinibido com o corpo enquanto eu, bem longe do sofrer, segurava sua mão.


“Nossa”

Desditosos pseudo puritanos, deram de presente vertidas lágrimas onerosas, que mal se apresentavam e corriam pela face desgraçada daquela moça que por descuido, ou pelo etilismo, contara tudo que não devia, e batendo no peito, aceitou toda a rejeição repentinamente ridícula que seus queridos amásios lhe diziam entredentes ou em gritos histéricos. A pobre chorava lágrimas sofridas de quem vê um término iminente da sua felicidade, isso a doía, fazendo com que se esquecesse das quedas ocasionadas por descuido, ou pelo etilismo, e todas as feridas que se formaram em seu corpo.

Atordoada, correu ao telefone, proferindo palavras teimosas, que diziam sem se dizer. E no desespero de uma madrugada morbidamente exausta, ela feriu aquele homem, que tanto a faz feliz. Agora corre, menina, corre para sua casa que ainda tem muito a desculpar-se, aproveita e joga-te na cama, que o abraço quente de um amor arrebatado te espera.


Olhos crus

Aqueles olhos crus, um sorriso desapiedado, os lábios duros numa violência totalmente desejada, mas nem um pouco esperada. Olhei pela janela como quem olha um mundo inteiro em um segundo, cada detalhe, cada movimento não planejado, eu vi. É, eu vi todos e tudo, cada pedra, que faz de seu o lugar no qual se encontra, sem hesitar ela permanece intacta e corajosa, afinal a solidão é para os valentes. E admirava aquela pedra, como quem vê um mundo inteiro num único pedregulho, tão morto, frio e tão temero.

Aquele rosto parado à minha frente não me amedrontava mais, pois agora fazia de mim uma rocha. Impávida perante o perigo abundante que aquele amor me oferecia, aceitei de bom grado aquelas mãos nas minhas, aquele calor no meu. Por dentro gritava-me algo que, pela felicidade do verbo “ter”, fora ofuscado. E eu tinha tudo naquele momento, juntos num abraço longo e poderoso, formamos um castelo. Naquele momento eu senti que podia tudo, e foi então que a pedra deixou de ser, a solidão se foi, assim como a coragem e a força.

Algo havia transformado o pedregulho em seixo, pequeniíssimo seixo, que logo se partiu ao meio. E então algo me sussurrava aos ouvidos que eu não poderia te perder de forma alguma, talvez tenham sido aqueles “eu te amo” ditos com tanta segurança, talvez tenham sido aqueles olhares complacentes, ou aqueles beijos que, com dose dupla de pachorra, me diziam perfeitamente o quanto eu era feita para aquele homem. E eu ia respondendo tudo com uma bela afirmação, mirando aqueles olhos ora crus, ora complacentes.

E depois, sem medo de errar, digo que aquela pedra já não era mais, e estava terrivelmente apaixonada pela pessoa que chamava de “homem da minha vida”.


Petulância, ignorância e um pouco mais do que eu odeio

Odeio gente grossa, e odeio ainda mais quem finge ser meigo e, no fundo, não passa de um abrutalhado, daqueles bem indelicados mesmo. Odeio gente que não se valoriza, faz o que não quer para ver um outro alguém feliz, e diga-se de passagem que na maioria das vezes, esse outro alguém não é merecedor de tamanho esforço, ou privação. Odeio gente fraca, que não suporta nem seus menores problemas, e ainda se convence que são de dimensões estratosféricas. Odeio gente mal resolvida, que não sabe o que quer, e pelo jeito nunca vai saber. Odeio essa gente que se acha melhor que os outros porque se julga “mais intelectual”, e no final, ser intelectual na pequena mente desse ignóbil é beber uísque, discutir sobre o pouco de história, arte e literatura que sabe, e ainda por cima fumar seus mercenários na frente das pessoas e cuspir a fumaça na lata de um amigo, enfim, tudo não passa de ignorância. Odeio gente que trata mal, não liga, não chama, na verdade, não se importa. Odeio gente insossa, que não tem personalidade, que não tem opinião, que gosta de tudo e todos, sem exceção. Odeio gente que finge que não odeia, e odeio gente que esconde quando ama. Odeio mais ainda quem diz que nunca fez nada de errado. Odeio gente egoísta, gente mentirosa, gente sem escrúpulos. É, eu odeio esses otários. Odeio gente egocêntrica, e odeio quem é amigo de “todo mundo”. Odeio gente que se exibe, e gente que joga na cara. E eu sei que ainda há muito ódio pra contar, mas eu me recuso a perder mais tempo com tanta coisa ruim. Por último, mas não menos importante, odeio gente que não gosta de ser ferido, mas trata as pessoas como objeto.


Nunca acreditei e nunca acreditarei

Meu velho amigo, há anos e anos emaranhados num enredo trágico, muito mal escrito e contado. Seus gostos muito conhecidos por mim, meus gostos, os quais você nunca soube e nunca saberá. Existíamos e nos víamos, confesso que era uma grande tentação te ver todos os dias pelos corredores daquela corporação de vadios. Ah, meu Gaudério, assumo-te como um desejo veemente. Parece-me que seu jeito gatuno, gatuno de corações adolescentes, conquista com muita facilidade.

Pobres coitadas, migalhando um pouco de amor para alguém que não tem coração. Migalhando carinho para um sádico muito morbidamente humorado, que na primeira chance de destrato não hesitará em fazê-lo. Míseras meninas que não conhecem o mal e muito menos desconfiam de quem possa exercê-lo, afastem-se o mais rápido que puderem, e eu as alerto com piedade de seus corpos tão indevidamente tocados por este desventurado incapaz de enxergar amores e risos verdadeiros.

Não, meninas dos meus olhos, não façam assim, não façam nada por ele. Eu lhes digo, com maior sinceridade seria impossível, ele não faria nada por vocês, não se enganem com os mimos deste perfeito galhardo, ele foi treinado desde piá a ignorar demonstrações de afeto e também a só proporcioná-las quando fosse de extrema necessidade, e, minhas queridas, suas silhuetas nuas no bronzeado quente de um quarto é o que ele chama de “extrema necessidade”.

Desculpem-me a franqueza, meus amores, odeio ver seus sentimentos jogados às traças dessa forma tão covarde, mas ele nunca foi e nem será de vocês. Se forem embora, ele mal notará, tem muitas outras como substitutas do seu braço, abraço, quadril e cintura. Não se enganem, e por mais que muitas de vocês façam parte daquele covil de valérias, ainda assim são meninas, que se acham mulheres, mas são e serão meninas demais para entender que ele não é o seu tão esperado conto de fadas.


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