Aqueles olhos crus, um sorriso desapiedado, os lábios duros numa violência totalmente desejada, mas nem um pouco esperada. Olhei pela janela como quem olha um mundo inteiro em um segundo, cada detalhe, cada movimento não planejado, eu vi. É, eu vi todos e tudo, cada pedra, que faz de seu o lugar no qual se encontra, sem hesitar ela permanece intacta e corajosa, afinal a solidão é para os valentes. E admirava aquela pedra, como quem vê um mundo inteiro num único pedregulho, tão morto, frio e tão temero.
Aquele rosto parado à minha frente não me amedrontava mais, pois agora fazia de mim uma rocha. Impávida perante o perigo abundante que aquele amor me oferecia, aceitei de bom grado aquelas mãos nas minhas, aquele calor no meu. Por dentro gritava-me algo que, pela felicidade do verbo “ter”, fora ofuscado. E eu tinha tudo naquele momento, juntos num abraço longo e poderoso, formamos um castelo. Naquele momento eu senti que podia tudo, e foi então que a pedra deixou de ser, a solidão se foi, assim como a coragem e a força.
Algo havia transformado o pedregulho em seixo, pequeniíssimo seixo, que logo se partiu ao meio. E então algo me sussurrava aos ouvidos que eu não poderia te perder de forma alguma, talvez tenham sido aqueles “eu te amo” ditos com tanta segurança, talvez tenham sido aqueles olhares complacentes, ou aqueles beijos que, com dose dupla de pachorra, me diziam perfeitamente o quanto eu era feita para aquele homem. E eu ia respondendo tudo com uma bela afirmação, mirando aqueles olhos ora crus, ora complacentes.
E depois, sem medo de errar, digo que aquela pedra já não era mais, e estava terrivelmente apaixonada pela pessoa que chamava de “homem da minha vida”.