Arquivo do mês: janeiro 2012

Olhos crus

Aqueles olhos crus, um sorriso desapiedado, os lábios duros numa violência totalmente desejada, mas nem um pouco esperada. Olhei pela janela como quem olha um mundo inteiro em um segundo, cada detalhe, cada movimento não planejado, eu vi. É, eu vi todos e tudo, cada pedra, que faz de seu o lugar no qual se encontra, sem hesitar ela permanece intacta e corajosa, afinal a solidão é para os valentes. E admirava aquela pedra, como quem vê um mundo inteiro num único pedregulho, tão morto, frio e tão temero.

Aquele rosto parado à minha frente não me amedrontava mais, pois agora fazia de mim uma rocha. Impávida perante o perigo abundante que aquele amor me oferecia, aceitei de bom grado aquelas mãos nas minhas, aquele calor no meu. Por dentro gritava-me algo que, pela felicidade do verbo “ter”, fora ofuscado. E eu tinha tudo naquele momento, juntos num abraço longo e poderoso, formamos um castelo. Naquele momento eu senti que podia tudo, e foi então que a pedra deixou de ser, a solidão se foi, assim como a coragem e a força.

Algo havia transformado o pedregulho em seixo, pequeniíssimo seixo, que logo se partiu ao meio. E então algo me sussurrava aos ouvidos que eu não poderia te perder de forma alguma, talvez tenham sido aqueles “eu te amo” ditos com tanta segurança, talvez tenham sido aqueles olhares complacentes, ou aqueles beijos que, com dose dupla de pachorra, me diziam perfeitamente o quanto eu era feita para aquele homem. E eu ia respondendo tudo com uma bela afirmação, mirando aqueles olhos ora crus, ora complacentes.

E depois, sem medo de errar, digo que aquela pedra já não era mais, e estava terrivelmente apaixonada pela pessoa que chamava de “homem da minha vida”.


Petulância, ignorância e um pouco mais do que eu odeio

Odeio gente grossa, e odeio ainda mais quem finge ser meigo e, no fundo, não passa de um abrutalhado, daqueles bem indelicados mesmo. Odeio gente que não se valoriza, faz o que não quer para ver um outro alguém feliz, e diga-se de passagem que na maioria das vezes, esse outro alguém não é merecedor de tamanho esforço, ou privação. Odeio gente fraca, que não suporta nem seus menores problemas, e ainda se convence que são de dimensões estratosféricas. Odeio gente mal resolvida, que não sabe o que quer, e pelo jeito nunca vai saber. Odeio essa gente que se acha melhor que os outros porque se julga “mais intelectual”, e no final, ser intelectual na pequena mente desse ignóbil é beber uísque, discutir sobre o pouco de história, arte e literatura que sabe, e ainda por cima fumar seus mercenários na frente das pessoas e cuspir a fumaça na lata de um amigo, enfim, tudo não passa de ignorância. Odeio gente que trata mal, não liga, não chama, na verdade, não se importa. Odeio gente insossa, que não tem personalidade, que não tem opinião, que gosta de tudo e todos, sem exceção. Odeio gente que finge que não odeia, e odeio gente que esconde quando ama. Odeio mais ainda quem diz que nunca fez nada de errado. Odeio gente egoísta, gente mentirosa, gente sem escrúpulos. É, eu odeio esses otários. Odeio gente egocêntrica, e odeio quem é amigo de “todo mundo”. Odeio gente que se exibe, e gente que joga na cara. E eu sei que ainda há muito ódio pra contar, mas eu me recuso a perder mais tempo com tanta coisa ruim. Por último, mas não menos importante, odeio gente que não gosta de ser ferido, mas trata as pessoas como objeto.


Nunca acreditei e nunca acreditarei

Meu velho amigo, há anos e anos emaranhados num enredo trágico, muito mal escrito e contado. Seus gostos muito conhecidos por mim, meus gostos, os quais você nunca soube e nunca saberá. Existíamos e nos víamos, confesso que era uma grande tentação te ver todos os dias pelos corredores daquela corporação de vadios. Ah, meu Gaudério, assumo-te como um desejo veemente. Parece-me que seu jeito gatuno, gatuno de corações adolescentes, conquista com muita facilidade.

Pobres coitadas, migalhando um pouco de amor para alguém que não tem coração. Migalhando carinho para um sádico muito morbidamente humorado, que na primeira chance de destrato não hesitará em fazê-lo. Míseras meninas que não conhecem o mal e muito menos desconfiam de quem possa exercê-lo, afastem-se o mais rápido que puderem, e eu as alerto com piedade de seus corpos tão indevidamente tocados por este desventurado incapaz de enxergar amores e risos verdadeiros.

Não, meninas dos meus olhos, não façam assim, não façam nada por ele. Eu lhes digo, com maior sinceridade seria impossível, ele não faria nada por vocês, não se enganem com os mimos deste perfeito galhardo, ele foi treinado desde piá a ignorar demonstrações de afeto e também a só proporcioná-las quando fosse de extrema necessidade, e, minhas queridas, suas silhuetas nuas no bronzeado quente de um quarto é o que ele chama de “extrema necessidade”.

Desculpem-me a franqueza, meus amores, odeio ver seus sentimentos jogados às traças dessa forma tão covarde, mas ele nunca foi e nem será de vocês. Se forem embora, ele mal notará, tem muitas outras como substitutas do seu braço, abraço, quadril e cintura. Não se enganem, e por mais que muitas de vocês façam parte daquele covil de valérias, ainda assim são meninas, que se acham mulheres, mas são e serão meninas demais para entender que ele não é o seu tão esperado conto de fadas.


Falta

Sinto falta do que ainda não vi, sinto falta de pessoas que ainda nem cheguei a conhecer, sinto falta de um abraço apertado numa dessas noites frias tão indevidamente tortuosas. E por não ter te notado, eu me peço perdão, por não ter te visto antes, te peço perdão por não termos acabado com tanto sofrer desnecessário, e te levo comigo, te pego pelos dedos, desmanchada em sorriso, correndo rápido demais para que fujamos desse templo valeriano, repleto de amores forjados, e eu te peço, meu amor, não se engane com nenhum deles, pois são letais, para você, para mim, para nós.

Eu sei, eu sei. Às vezes a vida é mais do que só penosa, mas eu te prometo, e te prometo sem medo de errar, uma vida bem aventurada. Completa de surpresas, um gosto bem diferente do que você está acostumado a sentir. Vou te chamar de tudo que quiser chamar, sem vergonha de um riso apaixonado como acompanhamento, só te peço que faça o mesmo, sem medo de me escutar quando for contar os meus sonhos tão insensatos.

Sinto sua falta, meu amor, mesmo sem te conhecer. Sinto sua falta.


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