Duas

Os olhos próprios de ébano, minha relação fraterna com aquela guria de cor trigueira perfeitamente alinhava minha vida e meus planos de futuro, uma amizade cuja afeição era tamanha, que não se precisava mais nada. Nossas peregrinações nada penosas, era um prazer descomunal passar dias à sombra, na beira de qualquer coisa desde que contivesse água, ou à luz da lua, em noites tão tardes que se tornavam manhãs prematuras.

Lembrei-me do quadro que escondemos por medo de dormir com o olhar penetrante daquele homem, mais conhecido como “nosso salvador”. Escondemos sim, dentro de um móvel praticamente inutilizável, agredido pelo tempo e pelos cupins, e trancávamos a porta, como se isso fizesse alguma diferença. Sozinhas, desbravando aquela casa e aquele condomínio, pulando na água pela madrugada, ao som de músicas que na época não me lembrava, e até hoje não me lembro. Quatis que invadiam a gigantesca casa, cada passo, um susto. Insetos que tomaram a casa de nós mesmas, cada descoberta, um berro aterrorizado.

Tentava assistir seus filmes, e esperava a minha companhia. Ao chegar naquele cômodo, com móveis de admiráveis dimensões e maravilhosa distribuição de luzes, eu me deitava, acompanhada do fastio de continuar acordada, e claro, não passou de uma tentativa frustrada de permanecer com os olhos abertos e seriamente asistindo o filme que escolheu a dedo para trazer o meu sono.

Belas histórias, inúmeras piadas, nós somos para o resto da vida, cúmplices até a morte, minha querida irmã. Só faltava o sangue.


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