Arquivo do mês: dezembro 2011

Um brinde

Venho esperando você chegar, como quem não quer nada, um sorriso sem jeito para alegrar meu dia. Venho esperando suas mãos, seus braços, para um carinho, um abraço do seu calor. Venho esperando, com travesseiros sempre fieis à minha carência, o pomo de toda sua masculinidade, o fim do seu ardor juvenil. Buscando corpos tão frios ao meu ver, para não perder a esperança de um dia te encontrar, nessas ruas movimentadas demais, e dizer que foi bom te descobrir sem ter que procurar. Um brinde à teia de mentiras que inventamos para não dizer um amor puramente verdadeiro.

Venho esperando palavras sinceras suas, que você diz, sem nem ao menos dizer. Venho procurando suas despedidas. Ah, como eu queria um beijo seu de boa noite, um abraço seu de boa noite, um aconchego todo seu de boa noite. Essa seria a minha recompensa por ter te esperado todos esses anos, sem nem ter certeza se te veria alguma hora. E eu ainda espero o dia que colocarei os olhos em você, te cumprimentarei como um qualquer, e sairei sorrindo pelas ruas pacatas dessa nossa cidade. Um brinde ao meu descaso, e à tudo que eu não tenho premissa para fazer.

Venho te lendo sem você saber, uma permissão que eu não poderia pedir, nem esperar para ter. De palavra a palavra, montando frases inexistentes, formando algumas verdades da sua personalidade. Te descobrindo, e assim você me descobre, de sorriso em sorriso, de pensamento em pensamento. Venho procurando suas manias, tão minhas, seu gosto em guardar calhaus ou o seu desgosto em guardar seu coração, tão seriamente ultrajado. Um brinde aos seus afetos, ao que não deu certo, ao que deu certo. Um brinde às suas manias, minhas manias, enfim nossas. Um brinde à você, à mim, enfim, um dia, quem sabe, nós.


Oração

Eu te esperei uma eternidade. Desperdicei praticamente tudo que tinha, inclusive dignidade e orgulho. É, eu te esperei para que pudesse enxergar quem realmente faria diferença na sua vida miserável. É, eu te esperei para sermos algo perfeito e intocável. Eu realmente esperei que fossemos algo, que algum dia, você fosse se dar conta da vida que eu abri mão por você e pelo seu amor forjado. Eu achei que você fosse dar valor, que você fosse me tratar como eu realmente mereço. Eu achei que você fosse agarrar minha mão para nunca mais soltá-la, e tão rápido que chegou a me dar vertigem, você resolveu se libertar de mim e da minha mão. Eu não era qualquer uma para você, eu era o seu dia-a-dia, eu era a harmonia do seu dia, não deveria ter feito o que fez. Doeu-me o peito te ver de dois em dois dias tentando estabelecer um contato comigo, talvez para saber se eu estava viva, se eu estava bem, se eu pretendia voltar a te dar mais chances para você esgotá-las novamente. Não sei, eu te esperei, eu te esperei, meu amor, como eu te esperei! Esperei por anos e anos, incontáveis, para perder um pouco do meu tempo com você, talvez um resto de vida. Você se foi, e agora tenta voltar, para acabar com a minha vida novamente, me partir em estilhaços e ainda rir de mim para suas vadias, perdoe-me pela franqueza. Prófugo desgraçado, não venha com suas desculpas ridículas para falar comigo, você me disse que sabe que eu não quero conversa, então simplesmente não venha, pois eu acabo com uma vontade colossal de … Bom, de muitas coisas.


Meu cântico tenebroso

Sorvado o vinho rascante, seguido de um travo de garganta inoportuno, fui em direção à minha dúvida. Ora, eu passaria horas tentando decifrar cada pequeno detalhe desse acontecimento fortuito, contudo meu orgulho me trancafiou em minha própria casa. Tão debilmente  cedida aos torpes, provavelmente por atender aos pré requisitos de uma amante incurável. Embora minhas ações contradigam o que sinto, sei do que falo.

Ninguém nunca concebeu um projeto tão complexo quanto o meu. Estou disposta, todavia definitivamente despreparada, para cumprir minha mais nova promessa, tão nova e com um futuro nada auspicioso. É, parece-me que o masoquismo ainda me domina. Já proferi muitas vezes as mesmas palavras, na mesma ordem, no mesmo tom, à procura do seu timbre. Como se fosse um evento corriqueiro me transformar em alguém sem escrúpulos e totalmente perversa, por ter sofrido algumas, excessivas vezes, por um amor que me viria apenas depois.

E numa dessas madrugadas que eu me encontro perfeitamente indefinida, disseram algumas verdades que me doeram o peito. Contaram-me sobre dores profundas, sendo eu a razão deste mal. Olharam-me olhos mareantes cansados de tanto procurar. Relataram-me minha compulsão, com direito aos danos que causei à todos e a mim mesma. É, talvez seja verdade, minha coleção havia se intensificado com vigor neste último e desnecessariamente pesado ano.

E foi então que o meu “talvez” jorrou pelas minhas vistas, em nome do ódio e do desprezo. Eu sinto muito ter mudado, mas nada justifica o que me fizeram, e o pior: sem aviso prévio. Bom, mudaria se alguém merecesse, mas ultimamente mérito está mais impossível de se encontrar do que uma doação de coração sem lista de espera. Eu deveria ter me lembrado: homens são como cigarros, nada além.


Duas

Os olhos próprios de ébano, minha relação fraterna com aquela guria de cor trigueira perfeitamente alinhava minha vida e meus planos de futuro, uma amizade cuja afeição era tamanha, que não se precisava mais nada. Nossas peregrinações nada penosas, era um prazer descomunal passar dias à sombra, na beira de qualquer coisa desde que contivesse água, ou à luz da lua, em noites tão tardes que se tornavam manhãs prematuras.

Lembrei-me do quadro que escondemos por medo de dormir com o olhar penetrante daquele homem, mais conhecido como “nosso salvador”. Escondemos sim, dentro de um móvel praticamente inutilizável, agredido pelo tempo e pelos cupins, e trancávamos a porta, como se isso fizesse alguma diferença. Sozinhas, desbravando aquela casa e aquele condomínio, pulando na água pela madrugada, ao som de músicas que na época não me lembrava, e até hoje não me lembro. Quatis que invadiam a gigantesca casa, cada passo, um susto. Insetos que tomaram a casa de nós mesmas, cada descoberta, um berro aterrorizado.

Tentava assistir seus filmes, e esperava a minha companhia. Ao chegar naquele cômodo, com móveis de admiráveis dimensões e maravilhosa distribuição de luzes, eu me deitava, acompanhada do fastio de continuar acordada, e claro, não passou de uma tentativa frustrada de permanecer com os olhos abertos e seriamente asistindo o filme que escolheu a dedo para trazer o meu sono.

Belas histórias, inúmeras piadas, nós somos para o resto da vida, cúmplices até a morte, minha querida irmã. Só faltava o sangue.


A canção que eu não consigo esquecer

Hoje eu me capturei, estava pensando em ti, como nunca havia pensado antes. Agarrada com uma fisga, sorri um sorriso leve e descontraído, devaneando te encontrar nas ruas tão cheias e poluídas, principalmente quando passei na frente do nosso antigo colégio, odiado e mesmo assim um tanto quanto amado.

Parece-me um novo amor, que me toma pelas mãos ressecadas, e me eleva, me põe ao alto. Assim como uma rainha é rigorosamente tratada. A suavidade das tuas palavras, sempre muito controladas para não agredir, assim como uma flor é precisamente tratada com muitos cuidados para não murchar. Cuida-te sobre meus pensamentos e pesares.

Ó, meu amor, há tanto por vir. Temos tanto a viver. As brumas despojadas de outrora foram conduzidas para o inferno que há dentro das inumeras  monstruosidades que eu conheço.

Ouço um estouro silencioso que parte do teu âmago. Bastou-me um tilintar, aquele tilintar de vento, daqueles que não se ouve, para saber que tua ternura havia chegado até mim. Vejo mil cores, beijando-me de compaixão pelas injúrias sofridas, meus braços, costas, coxas e, por fim, beijavam-me a testa, para guardar minha dor, saneando todas as minhas doenças com o amor da tua luz.

Nunca sofras, meu amor, por pouco que seja. Nenhuma mágoa é válida para tu’alma.


De sangue e os que não são

Dei-me a liberdade de ser livre hoje. Acordei na sétima parte do dia, cefaleia de sobra para um dia tão inutilmente agradável. Presunçosa estava, olhava-me no espelho e via uma felicidade que desconheço as origens. Olhava e ria, um riso sem desculpa. E então num súbito pesar que me invadiu, tinha, e na verdade, tinha porque eu fazia questão de me obrigar, de voltar para o aconchegante lar da minha fonte.

Passaram-se horas e eu ainda acreditava que fazia uma manhã agradável, tão vistosa fora dos meios de condução. Estava flamejante, queria e não aceitava outra resposta senão voar diretamente para os braços do meu confrade mais jovem e mais sofrido. Podia sentir os cabelos arrepiados do sono fazendo cócegas no meu rosto, e ao ligar quase chorei de felicidade, isso porque haviam poucas horas, menos de vinte e quatro, desde a nossa despedida.

Cheguei e o abraço foi um tiro certeiro, apertou meu coração e eu mesma me desmantelei. Esses amores fraternos andam me quebrando as pernas de saudade, e de tanto amor. Portanto, meus queridos irmãos, peço-lhes que não cresçam, fiquem sempre assim, no mundo que há em minhas mãos carinhosas. Fiquem ou finjam que estão, não fujam com a minha estabilidade, meu sorriso é tão natural com vocês, não sumam com ele.

Ouviram minhas preces, meus deuses? Pois bem, para os que não são de sangue, e se eu me apaixonar por um de vocês?


Chuva

Senti um pesar de noite quente, embora estivesse muito frio. Aquela noite impossível, espaço de tempo inacabável, no qual eu só conseguia mudar de posição, na esperança de uma letargia repentina me arrebatar e me salvar dos meus pensamentos infames. E me passavam aquelas recordações que a posterioridade já havia me guardado algumas vezes, e agora guardavam novamente, uma narração, já que me lembrava mais de falas que de pequenos filmes, do que nós já fomos juntos, ou pelo menos, fingimos ser. 

Nessas reminiscências, encontrei amores calmantes e amores esbraseantes, e a vermelhidão pela raiva me tomava os olhos. O rancor violento, aquela cólera, puxava-me os cabelos, de forma a arrancá-los, e assim o rubor guardava meus olhos, agora vermelhos de repulsa e também de dor. Nunca me arrependera tanto, madeixas tomadas pelo chão. 

Imaginei-me em várias versões das mesmas situações, que se repetiam e repetiam novamente, todas dando errado, de alguma forma. E então percebi que não dormia, e também deixava de comer, de falar e de sair. Notei que fumar, beber e ler eram as únicas coisas que eu realmente fazia, e sem hesitar. Os atos de fumar, beber e ler eram sempre acompanhados por uma lembrança comum: você. E então eu falava, num meio sorriso meio doído: É, mais uma vez minhas expectativas não correspondem à realidade. E soltava aquele nevoeiro de veneno, dantes preso nos meus pulmões, no ar. 

Repetia-me: Dezoito anos são muitos anos para serem vividos dessa forma. E me perguntava quanto tempo mais passaria sem modificação alguma, sendo que por falta de resposta, eu me levantava da cama, pegava uma daquelas gomas com gosto de infância e me transferia instantaneamente para a puerícia. 

Veja bem, agora uma mulher, mora sozinha, conversa sozinha, dá conta de tudo quase sempre sozinha, deitava, e se agarrava às próprias pernas, como se estas fossem a resposta que eu tanto precisava naquele momento. E agora eu me digo: Está tudo bem, tudo bem. O mundo sempre foi assim, muita gente apaixonada, pra pouca gente que vale a pena se apaixonar. 


“Raio de sol”

E não é que a felicidade é a pior coisa que pode acontecer na vida de uma pessoa que escreve? Estava eu, com toda a minha melancolia, indo atrás de mais melancolia ainda, e nesse trajeto, parei para um almoço mais ou menos, totalmente por acaso. Totalmente por acaso encontrei-te, felicidade, nessas esquinas da vida, resolvi dar-me um descanso e, finalmente, descobri-te. Já não era tempo.

É preciso paixão, é preciso dor, preciso felicidade, preciso tristeza e o mais importante, é preciso o não rancor. Suas palavras de sábio, gestos carinhosos de pai. Uma vida nada fácil e tão bela. Tantas vezes usei “raio de sol” como comparação, ou como apelido descarinhoso, usando essa ironia tão natural do meu ser. E de repente, você me chega com a sua pureza de amor inabalável, usando “raio de sol” como comparação e apelidos carinhosos, sem ironia, com total fidelidade.

Morada dos bem-aventurados seja seu lugar, não, não é um desejo de cessação da vida, e sim de bem-estar infinito pós-vida, se é que isso existe. Já que todos vamos perecer, que isto seja de grande prazer para você, quando chegar-te a hora. Que seja o mais leve possível. Se fosse realizável, tiraria toda a dor do óbito e da vida das suas costas e traria para as minhas. Nada como ver um grande amigo transbordando alegria.

Viva, meu querido, viva porque há muito tempo para isso. Alegre o dia de outras pessoas, assim como fez com a minha nesse dia. Viva, meu amigo, viva porque é o que melhor sabe fazer. É bela, não?


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